Primeiras palavras
Há muitos anos, venho pensando em transcrever o que vivi
e vi da vida, durante minha condição de suposto humano, condenado a um corpo
físico real. Enquanto, ao longo dos tempos, adquiria conhecimento através da
longa observação das atividades dos seres terrenos.
Enquanto Anjo, era um ser espiritual, etéreo, dotado de
uma inteligência singular, mas limitada a servidão do Grande Criador, com
emoções e vontades sujeitas à vontade de Deus.
Fui criado para ser de uma ordem superior de criaturas no
universo, em comparação aos seres humanos. Por este motivo, é de minha natureza
possuir maior conhecimento. No entanto, os humanos possuem o livre arbítrio para
escolherem servir ou não a vontade do Grande Pai. Aos Anjos, só resta à
obediência instantânea e sem questionamentos às ordens do Senhor da Criação.
Ainda Anjo, fiquei encantado com os seres terrenos, seus
desejos inocentes, sua capacidade de amar, o êxtase do sexo... e toda energia
de prazer que emanava de seus corpos frágeis e mortal.
Uma forte curiosidade de sentir os sentimentos humanos, me
dominou, cegando-me para as consequências.
Não hesitei e, sobre uma forma humana, desci a terra e me
encantei por uma linda jovem de nome Adna.
Ela era um raio de sol, possuía o sorriso mais iluminado que já havia
visto em minha, até o momento, recente existência na época.

Seduzi Adna e deitei-me com ela. Sua pele cheirava a
rosas e seus lábios eram doces como as primeiras gotas de orvalho da manhã. A
cada dia me apegava mais, até que uma tragédia aconteceu. Em seu ventre foi
concebido uma vida. Acreditava que isso não seria possível, mas aconteceu. O
medo passou a afligir meu coração, afinal de contas, não sabia que tipo de
criatura poderia nascer desta união.
Toda gravidez foi complicada, a criança se desenvolvia de
uma maneira diferente das demais, das normais. Em um parto difícil, que levou
Adna a morte, nasceu nosso filho, uma criança incomum, de uma raça de gigante,
forte e agitada.
Nesta época descobri que um Anjo conhecido como a ‘estrela
da manhã’ e ‘filho da alva’, por orgulho, rebelou-se contra Deus.
Este, havia sido criado por Deus para ser um anjo
governante, era conhecido por Lúcifer, possuidor de grandes poderes. Mas o
orgulho o levou a ficar torcido pelo pecado, se transformando em Satanás, que
quer dizer `inimigo´ ou `adversário´ de Deus.
Lúcifer convencera outros Anjos a se deitarem com as
filhas dos homens no intuito de tentar poluir a linha sanguínea humana para impedir
que um Messias sem pecado nascesse. Pois sabia ele, que Este iria ferir a
cabeça da serpente – Satanás. Então, seus séquitos de demônios estavam
provavelmente tentando atrapalhar este acontecimento.
Os filhos dos filhos de Deus (os Anjos) com as filhas dos
homens (Terrenos) foram nomeados de ‘Nefilins’ e fizeram atos de maldade sobre
toda a terra. Estes possuíam grande poder, eram os valentes que habitaram na
antiguidade, os homens de fama, deuses perversos, escravocratas e estupradores...
Seu grande tamanho e poder provavelmente vieram desta mistura
do "DNA" angélico e da genética humana.
Tentei ensinar amor ao meu filho com Adna, mas este possuía
um coração indomável e ferino. Rebelou-se contra mim.
Quando o grande Criador tomou ciência do que estava
acontecendo sobre sua até então perfeita criação terrena, mesmo com o coração
pesado, se arrependeu de ter feito o homem na terra. Então decidiu expulsar
todos os Anjos prevaricadores.
Uma grande batalha foi travada no Reino do Céu, no monte de
Deus. Miguel e os seus anjos fieis aos ditames do Senhor, pelejaram contra o ‘dragão’.
Também pelejaram o dragão e os seus anjos soberbos; todavia, não prevaleceram;
nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga
serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi
atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos traiçoeiros.
Estes receberam, também como punição, a forma humana, tiveram sua forma
etérea transformada em matéria sem alma, dotados com a eternidade, condenados a
viver entre os mortais para que pudessem pensar e se arrepender de suas
desobediências. Mesmo sem ter tido as mesmas motivações perversas de Lúcifer,
eu também fui expulso por minha desobediência carnal.

A maior das punições não foi ter sido expulso e
me tornado um semi-humano, mas viver na terra sem minha amada Adna. Uma parte minha se foi com ela.