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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Diário de um Anjo - Continuação 2...



Não vou negar que era bastante tentadora a proposta de Lúcifer, mas pensei...
‘Qual o preço a pagar por lutar no lado dele?’
Rever minha amada, meu primeiro e eterno amor, era o que mais queria. Mas como confiar em alguém com uma ambição tão grande? Confiar nesse alguém que desafiou seu próprio Criador, mesmo sabendo que não tinha a menor chance de vitória contra Ele.
- Você é um enganador – retruquei tentando jogar o jogo dele. – Como saberei que você não está blefando? Que não me enganará como enganou Eva?
- Eva não foi enganada, ela apenas fez uma escolha – ele falava serenamente como se o que havia feito não tivesse sido nada, como se esse fato não mudara para sempre a história da humanidade. – Porque é tão difícil para as pessoas assumir a responsabilidade por suas escolhas?
- Eva foi enganada por você sim, e isso levou a queda dela e de seu companheiro, Adão. – Ele mim olhava numa neutralidade perturbadora. – Ambos foram expulsos do paraíso e perderam a eternidade. A história da humanidade foi alterada definitivamente.


Expulsion of Adam and Eve (Alexandre Cabanel)


- Mas agora poderão pensar por si próprios – Mais um sorriso sarcástico surgia em seus lábios. – Não são mais alienados. Veja que presente maravilhoso eu os dei. Toda escolha tem um preço meu querido Azazel, até a não escolha, tem o preço da escolha.
Neste momento tive uma visão estranha, uma espécie de vertigem, que se apresentou para mim como uma imagem de uma cidade em ruínas, destruída. Mas não era uma cidade conhecida, comum... Parecia um lugar de um futuro distante. A imagem surgiu rápida e me deixou um pouco tonto.




- O que você viu? – Perguntou Lúcifer de súbito como se estivesse lendo minha mente.
- Como você sabe que tive uma visão? – Perguntei surpreso.
- Você é um Anjo muito jovem, ainda não tem noção de seu poder. E a Clarivisão ou segunda visão é um de seus dons – E passando a mão carinhosamente em meu rosto, continuou. – Junte-se a mim e o tornarei um poderoso guerreiro. Seu dom será muito útil em meu exército.
- Sinto muito, mas não farei parte de sua horda de degenerados.
- Sinto muito por você – continuou ele com um sorriso sereno no rosto. – Nunca mais verá sua amada Adna novamente! Aceite sua solidão eterna.
Deu as costas e foi embora sorrateiramente.
‘Veremos se eu não a encontrarei novamente, mesmo em outra vida, em outro tempo, outro lugar’...
Pensei, com muita raiva dele.
Mais um sentimento humano que acabara de conhecer. Raiva!
- Seremos sempre um do outro Adna, enquanto o mundo existir. Eu lhe prometo isso!



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Diário de um Anjo - Continuação 1...

Passei a vagar pela terra sem rumo. Atravessei desertos, vi cidades começarem a surgir em meio a uma terra cada vez mais habitada pela maldade humana. Os Nefilins tentavam sempre obrigar todos a ser tão ruins quanto eles.



Na época eu vivia preso em meu individualismo e superioridade, não conseguia pensar em outra coisa senão a dor da perda de minha amada Adna e em sobreviver naquela selva terrena. Esse sentimento era novo e estranho, era uma sensação que dominava minha mente e meu corpo. Além de ter que me acostumar a ter um corpo físico, ainda tinha que lidar com esses sentimentos incomuns.
‘Sentimentos humanos são muito conflituosos, angustiantes e dolorosos’. Pensava constantemente, preso numa agonia irritante.
A falta de Adna dilacerava meu coração, sentia como se houvesse uma mão apertando-o com força. Era para ela estar ao meu lado...
A esta altura perdi o contato com nosso filho que já se tornara um homem adulto e inconsequente. Ele desapareceu pelo mundo, não sabia se ainda estava vivo.
Com o passar dos tempos, começou a surgir rumores de uma grande tempestade que varreria toda terra. Uns acreditavam e temiam, mas a maioria não dava crédito a esta informação, zombavam de um íntegro homem chamado Noé, que foi designado por Deus a construir uma grande arca de três compartimentos, para abrigar sua família, mantimentos para a alimentação e um par de algumas espécies de animais, macho e fêmea.
Neste período, Lúcifer me procurou.


- Azazel, quanto tempo – enquanto falava olhava-me sedutoramente com seus olhos negros como a noite. – Já ficou sabendo que virá um grande dilúvio que varrerá toda terra?
- Deve ser boato – respondi sem dar muito crédito para que ele fosse embora e me deixasse em paz. – Não acredito que nosso Pai destruiria sua fabulosa criação terrena...
- Nós, seres angélicos, é que somos fabulosas criações – ele me interrompeu falando seriamente. – O que tem de fabuloso em criaturas mortais, frágeis e que apodrecem?
- Toda criação é fabulosa! – Afirmei encarando-o com raiva. – O que deseja de mim?
- Lhe ajudar a não perecer – suas palavras eram delicadas e sedutoras. – Nós somos eternos, mas não imortais. Imortal, por enquanto, é apenas o Criador. Que dita regras e nos extermina conforme sua vontade.
- Podemos morrer? – Perguntei imaginando uma possibilidade para quando cansar de brincar de ser humano.

Lúcifer sorriu e me olhou hipnotizadoramente com seus olhos de ébano arrebatador.


- Não é tão fácil, mas podemos morrer sim – de repente sua voz mudou, deixando transparecer uma raiva do Grande Pai da criação humana. – E o que nos difere dos humanos é que a morte deles é apenas uma passagem para um plano superior, onde são orientados sobre a verdade de Deus e do que precisam melhorar para ter direito a Seu Reino, com chance de retornar para uma nova vida terrena de aprendizados. Uma espécie de reeducação. – Era irritante como Lúcife amava debochar dos seres humanos mortais. - Alma e corpo são duas searas distintas neles. Enquanto que em nós, Anjos, tivemos nossa alma corporificada, se morrermos será definitivo, sem chance de retorno ou de outra vida para um novo aprendizado.
- Outra vida... Retorno? – um pensamento me deu uma gota de esperança. – Adna pode voltar para mim?
- Se você se juntar a meu exército, sim! – continuou ele sarcástico. – Eu lhe ajudo a sobreviver ao dilúvio e quando ela voltar a terra em outra vida, você poderá reconquista-la. Vem comigo e lhe direi como reconhecê-la.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Diário de um Anjo - 1ª Parte

Primeiras palavras




Há muitos anos, venho pensando em transcrever o que vivi e vi da vida, durante minha condição de suposto humano, condenado a um corpo físico real. Enquanto, ao longo dos tempos, adquiria conhecimento através da longa observação das atividades dos seres terrenos.
Enquanto Anjo, era um ser espiritual, etéreo, dotado de uma inteligência singular, mas limitada a servidão do Grande Criador, com emoções e vontades sujeitas à vontade de Deus.
Fui criado para ser de uma ordem superior de criaturas no universo, em comparação aos seres humanos. Por este motivo, é de minha natureza possuir maior conhecimento. No entanto, os humanos possuem o livre arbítrio para escolherem servir ou não a vontade do Grande Pai. Aos Anjos, só resta à obediência instantânea e sem questionamentos às ordens do Senhor da Criação.
Ainda Anjo, fiquei encantado com os seres terrenos, seus desejos inocentes, sua capacidade de amar, o êxtase do sexo... e toda energia de prazer que emanava de seus corpos frágeis e mortal.
Uma forte curiosidade de sentir os sentimentos humanos, me dominou, cegando-me para as consequências.
Não hesitei e, sobre uma forma humana, desci a terra e me encantei por uma linda jovem de nome Adna.
Ela era um raio de sol, possuía o sorriso mais iluminado que já havia visto em minha, até o momento, recente existência na época.


Seduzi Adna e deitei-me com ela. Sua pele cheirava a rosas e seus lábios eram doces como as primeiras gotas de orvalho da manhã. A cada dia me apegava mais, até que uma tragédia aconteceu. Em seu ventre foi concebido uma vida. Acreditava que isso não seria possível, mas aconteceu. O medo passou a afligir meu coração, afinal de contas, não sabia que tipo de criatura poderia nascer desta união.
Toda gravidez foi complicada, a criança se desenvolvia de uma maneira diferente das demais, das normais. Em um parto difícil, que levou Adna a morte, nasceu nosso filho, uma criança incomum, de uma raça de gigante, forte e agitada.
Nesta época descobri que um Anjo conhecido como a ‘estrela da manhã’ e ‘filho da alva’, por orgulho, rebelou-se contra Deus.
Este, havia sido criado por Deus para ser um anjo governante, era conhecido por Lúcifer, possuidor de grandes poderes. Mas o orgulho o levou a ficar torcido pelo pecado, se transformando em Satanás, que quer dizer `inimigo´ ou `adversário´ de Deus.
Lúcifer convencera outros Anjos a se deitarem com as filhas dos homens no intuito de tentar poluir a linha sanguínea humana para impedir que um Messias sem pecado nascesse. Pois sabia ele, que Este iria ferir a cabeça da serpente – Satanás. Então, seus séquitos de demônios estavam provavelmente tentando atrapalhar este acontecimento.
Os filhos dos filhos de Deus (os Anjos) com as filhas dos homens (Terrenos) foram nomeados de ‘Nefilins’ e fizeram atos de maldade sobre toda a terra. Estes possuíam grande poder, eram os valentes que habitaram na antiguidade, os homens de fama, deuses perversos, escravocratas e estupradores...
Seu grande tamanho e poder provavelmente vieram desta mistura do "DNA" angélico e da genética humana.
Tentei ensinar amor ao meu filho com Adna, mas este possuía um coração indomável e ferino. Rebelou-se contra mim.
Quando o grande Criador tomou ciência do que estava acontecendo sobre sua até então perfeita criação terrena, mesmo com o coração pesado, se arrependeu de ter feito o homem na terra. Então decidiu expulsar todos os Anjos prevaricadores.
Uma grande batalha foi travada no Reino do Céu, no monte de Deus. Miguel e os seus anjos fieis aos ditames do Senhor, pelejaram contra o ‘dragão’. Também pelejaram o dragão e os seus anjos soberbos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos traiçoeiros.
Estes receberam, também como punição, a forma humana, tiveram sua forma etérea transformada em matéria sem alma, dotados com a eternidade, condenados a viver entre os mortais para que pudessem pensar e se arrepender de suas desobediências. Mesmo sem ter tido as mesmas motivações perversas de Lúcifer, eu também fui expulso por minha desobediência carnal.


A maior das punições não foi ter sido expulso e me tornado um semi-humano, mas viver na terra sem minha amada Adna. Uma parte minha se foi com ela.