Passei
a vagar pela terra sem rumo. Atravessei desertos, vi cidades começarem a surgir
em meio a uma terra cada vez mais habitada pela maldade humana. Os Nefilins
tentavam sempre obrigar todos a ser tão ruins quanto eles.
Na época eu vivia preso em meu individualismo e superioridade, não
conseguia pensar em outra coisa senão a dor da perda de minha amada Adna e em
sobreviver naquela selva terrena. Esse sentimento era novo e estranho, era uma sensação
que dominava minha mente e meu corpo. Além de ter que me acostumar a ter um
corpo físico, ainda tinha que lidar com esses sentimentos incomuns.
‘Sentimentos humanos
são muito conflituosos, angustiantes e dolorosos’. Pensava constantemente, preso numa agonia irritante.
A falta de Adna dilacerava meu coração, sentia como se houvesse
uma mão apertando-o com força. Era para ela estar ao meu lado...
A esta altura perdi o contato com nosso filho que já se tornara
um homem adulto e inconsequente. Ele desapareceu pelo mundo, não sabia se ainda
estava vivo.
Com o passar dos tempos, começou a surgir rumores de uma grande
tempestade que varreria toda terra. Uns acreditavam e temiam, mas a maioria não
dava crédito a esta informação, zombavam de um íntegro homem chamado Noé, que
foi designado por Deus a construir uma grande arca de três compartimentos, para
abrigar sua família, mantimentos para a alimentação e um par de algumas espécies
de animais, macho e fêmea.
Neste período, Lúcifer me
procurou.
- Azazel, quanto tempo – enquanto falava olhava-me sedutoramente
com seus olhos negros como a noite. – Já ficou sabendo que virá um grande dilúvio
que varrerá toda terra?
- Deve ser boato – respondi sem dar muito crédito para que ele
fosse embora e me deixasse em paz. – Não acredito que nosso Pai destruiria sua fabulosa
criação terrena...
- Nós, seres angélicos, é que somos fabulosas criações – ele me interrompeu
falando seriamente. – O que tem de fabuloso em criaturas mortais, frágeis e que
apodrecem?
- Toda criação é fabulosa! – Afirmei encarando-o com raiva. – O que
deseja de mim?
- Lhe ajudar a não perecer – suas palavras eram delicadas e
sedutoras. – Nós somos eternos, mas não imortais. Imortal, por enquanto, é
apenas o Criador. Que dita regras e nos extermina conforme sua vontade.
- Podemos morrer? – Perguntei imaginando uma possibilidade para
quando cansar de brincar de ser humano.
Lúcifer sorriu e me olhou hipnotizadoramente
com seus olhos de ébano arrebatador.
- Não é tão fácil, mas podemos morrer sim – de repente sua voz
mudou, deixando transparecer uma raiva do Grande Pai da criação humana. – E o
que nos difere dos humanos é que a morte deles é apenas uma passagem para um
plano superior, onde são orientados sobre a verdade de Deus e do que precisam
melhorar para ter direito a Seu Reino, com chance de retornar para uma nova
vida terrena de aprendizados. Uma espécie de reeducação. – Era irritante como Lúcife
amava debochar dos seres humanos mortais. - Alma e corpo são duas searas
distintas neles. Enquanto que em nós, Anjos, tivemos nossa alma corporificada,
se morrermos será definitivo, sem chance de retorno ou de outra vida para um
novo aprendizado.
- Outra vida... Retorno? – um pensamento me deu uma gota de esperança.
– Adna pode voltar para mim?
- Se você se juntar a meu
exército, sim! – continuou ele sarcástico. – Eu lhe ajudo a sobreviver ao dilúvio
e quando ela voltar a terra em outra vida, você poderá reconquista-la. Vem
comigo e lhe direi como reconhecê-la.



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