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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Diário de um Anjo - Continuação 1...

Passei a vagar pela terra sem rumo. Atravessei desertos, vi cidades começarem a surgir em meio a uma terra cada vez mais habitada pela maldade humana. Os Nefilins tentavam sempre obrigar todos a ser tão ruins quanto eles.



Na época eu vivia preso em meu individualismo e superioridade, não conseguia pensar em outra coisa senão a dor da perda de minha amada Adna e em sobreviver naquela selva terrena. Esse sentimento era novo e estranho, era uma sensação que dominava minha mente e meu corpo. Além de ter que me acostumar a ter um corpo físico, ainda tinha que lidar com esses sentimentos incomuns.
‘Sentimentos humanos são muito conflituosos, angustiantes e dolorosos’. Pensava constantemente, preso numa agonia irritante.
A falta de Adna dilacerava meu coração, sentia como se houvesse uma mão apertando-o com força. Era para ela estar ao meu lado...
A esta altura perdi o contato com nosso filho que já se tornara um homem adulto e inconsequente. Ele desapareceu pelo mundo, não sabia se ainda estava vivo.
Com o passar dos tempos, começou a surgir rumores de uma grande tempestade que varreria toda terra. Uns acreditavam e temiam, mas a maioria não dava crédito a esta informação, zombavam de um íntegro homem chamado Noé, que foi designado por Deus a construir uma grande arca de três compartimentos, para abrigar sua família, mantimentos para a alimentação e um par de algumas espécies de animais, macho e fêmea.
Neste período, Lúcifer me procurou.


- Azazel, quanto tempo – enquanto falava olhava-me sedutoramente com seus olhos negros como a noite. – Já ficou sabendo que virá um grande dilúvio que varrerá toda terra?
- Deve ser boato – respondi sem dar muito crédito para que ele fosse embora e me deixasse em paz. – Não acredito que nosso Pai destruiria sua fabulosa criação terrena...
- Nós, seres angélicos, é que somos fabulosas criações – ele me interrompeu falando seriamente. – O que tem de fabuloso em criaturas mortais, frágeis e que apodrecem?
- Toda criação é fabulosa! – Afirmei encarando-o com raiva. – O que deseja de mim?
- Lhe ajudar a não perecer – suas palavras eram delicadas e sedutoras. – Nós somos eternos, mas não imortais. Imortal, por enquanto, é apenas o Criador. Que dita regras e nos extermina conforme sua vontade.
- Podemos morrer? – Perguntei imaginando uma possibilidade para quando cansar de brincar de ser humano.

Lúcifer sorriu e me olhou hipnotizadoramente com seus olhos de ébano arrebatador.


- Não é tão fácil, mas podemos morrer sim – de repente sua voz mudou, deixando transparecer uma raiva do Grande Pai da criação humana. – E o que nos difere dos humanos é que a morte deles é apenas uma passagem para um plano superior, onde são orientados sobre a verdade de Deus e do que precisam melhorar para ter direito a Seu Reino, com chance de retornar para uma nova vida terrena de aprendizados. Uma espécie de reeducação. – Era irritante como Lúcife amava debochar dos seres humanos mortais. - Alma e corpo são duas searas distintas neles. Enquanto que em nós, Anjos, tivemos nossa alma corporificada, se morrermos será definitivo, sem chance de retorno ou de outra vida para um novo aprendizado.
- Outra vida... Retorno? – um pensamento me deu uma gota de esperança. – Adna pode voltar para mim?
- Se você se juntar a meu exército, sim! – continuou ele sarcástico. – Eu lhe ajudo a sobreviver ao dilúvio e quando ela voltar a terra em outra vida, você poderá reconquista-la. Vem comigo e lhe direi como reconhecê-la.




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